O diálogo entre abordagens é possível? ou Como eu me "apaixonei" por uma TCCista. - Parte 2


Na primeira postagem eu falei da Marsha Linehan, que é uma tccista de formação, cujo trabalho descobri e me apaixonei. A Linehan tem uma significativa pesquisa sobre o transtorno de personalidade borderline. No livro Terapia Cognitivo-Comportamental para Transtorno de Personalidade Borderline, de autoria dela, Linehan nos apresenta uma revisão bibliográfica impecável sobre o tema, fazendo as críticas de forma clara, embasada e contundente, não se esquivando de criticar sua própria abordagem. É diante dessas críticas, de seu trabalho prático com pacientes diagnosticados com esse transtorno de personalidade e da sua própria experiência enquanto pessoa com diagnóstico de TPB, ela desenvolve uma prática clínica e chama de Terapia Dialética Comportamental (em inglês, DBT). A DBT é hoje reconhecida como um dos tratamentos mais eficazes para pacientes com diagnóstico borderline.

A questão é que o Transtorno de Personalidade Borderline tem diagnóstico difícil, muitas vezes é diagnosticado como depressão ou transtornos de humor. Pacientes com TPB tem, muitas vezes, dificuldade de adesão ao tratamento e construção de vinculo terapêutico duradouro, além de ter a ocorrência frequente de episódios de autolesão, ideação e tentativas de suicídio. E, como aponta a Linehan, na revisão bibliográfica sobre o tema, os pacientes borderline eram compreendidos como casos difíceis, que "causavam uma raiva intensa e sensação de impotência na equipe de apoio que lidava com eles" (Linehan, 2010, p. 20). Além disso, a bibliografia sobre o tema indicava que as tentativas de suicídio que não eram fatais, ou "parassuicídios" eram indícios de um comportamento manipulador por parte do paciente, o que gerava uma certa predisposição dos terapeutas a impaciência, como aponta a autora nas seguintes citações que separei:
As dificuldades em tratar esses indivíduos tornam particularmente fácil “culpar as vítimas” e, consequentemente, não gostar delas. Ainda assim, existe uma correlação entre gostar dos pacientes e ajudá-los. (Linehan, 2010, p. 26)
(...) a interpretação frequente do seu [dos pacientes com TPB] comportamento suicida como “manipulador” é uma grande fonte de sentimentos de invalidação e de não ser compreendido. Do ponto de vista deles, o comportamento suicida é um reflexo de ideação suicida séria e às vezes frenética e da ambivalência quanto a continuar vivendo ou não. Embora a comunicação dos pacientes de ideias extremas ou de comportamentos extremos possa vir acompanhada do desejo de ser ajudado ou resgatado pelas pessoas com quem estão se comunicando, isso não significa necessariamente que estejam agindo desse modo para obter ajuda. (Linehan, 2010, p. 29)
Para mim, o que a Linehan estava dizendo fazia total sentido na perspectiva fenomenológica e gestáltica que fui formado. Ela estava fazendo críticas e apontamentos que eram muito sintônicos com parte do que eu tinha desenvolvido na minha pesquisa de mestrado, em especial, com as questões merleau-pontyanas sobre a verdade, a construção de sentido e o fenômeno. Como vi, o que a Linehan estava fazendo era uma suspensão de teses e abrindo espaço para afirmar que o saber do terapeuta é sempre um saber limitado. Ainda mais, ela aponta que segundo outro tccista, Mischel (1968 apud Linehan, 2010), há pouca confiabilidade nas inferências clínicas. Então, passa-se para a auto-análise do paciente/cliente e é ele que tem capacidade de acessar melhor o fenômeno de si mesmo.
Enfim, acho que a gente chega em um lugar importante: a conclusão é que a gente, enquanto terapeuta, nunca acessará esse funcionamento do outro, apenas irá ter impressões ou intuir (fazer inferências). Essas inferências nunca podem/devem se tornar uma verdade sobre o outro, apenas pistas a serem investigadas.
Claro que aqui há uma série de questões importantes que é: "como chegamos a essas inferências?" e tem toda uma discussão disso no meu trabalho e  no trabalho do grupo de pesquisa que fiz parte com a orientação da prof. Mônica Alvim. Pretendo falar disso um pouco mais a frente.

Por enquanto, gostaria mesmo de marcar como que o trabalho da Linehan me fez ressignificar meu próprio olhar para a Gestalt-terapia e afirmar que esse diálogo foi difícil, por vezes, mas enriquecedor. Principalmente, por me convidar a estar atento a certos aspectos que eram originalmente embasadores do trabalho gestáltico e que estavam assumindo um segundo plano no meu trabalho. Isso porque a DBT, assim como as terapias da terceira onda em Terapia Cognitivo Comportamental, na minha perspectiva, bebem de fontes parecidas com a da Gestalt-terapia e chegam a lugares parecidos com os que a GT chegou nos anos 50: em especial as perspectivas zen-budistas, as noções de presença, integração, polaridades, suporte e auto-suporte, as meditações e seus efeitos, enfim, uma série de coisas que eu vou explorar melhor na parte 3 desse artigo.

Referências:
LINEHAN, Marsha. Terapia cognitivo-comportamental para transtorno da personalidade borderline. Ronaldo Cataldo Costa, Trad.). Porto Alegre: Artmed.[Trabalho original publicado em 1993.], 2010.


MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: WSF Martins Fontes, 2006.
PERLS, Frederick; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. 2ª edição. São Paulo: Summus, 1997.
ROBINE, Jean-Marie. A Gestalt-terapia terá a ousadia de desenvolver seu paradigma pós-moderno?. Estudos e Pesquisas em Psicologia, v. 5, n. 1, 2005.





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