O diálogo entre abordagens é possível? ou Como eu me "apaixonei" por uma TCCista. - Parte 1
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| Diálogo - Pedro Paricio |
Antes disso e das Jornadas de Junho de 2013 e todo o resto com impeachment da Dilma e etc etc, eu já vivia uma espécie de polarização, muito mais tímida por ser restrita aos corredores e salas de aula do Instituto de Psicologia da UFRJ, que se resumia na seguinte pergunta: "qual linha você vai seguir [na psicologia, geralmente na clínica]?"
Para quem esteja lendo e talvez não saiba, a Psicologia é múltipla pra caramba. Como eu sou primariamente clínico, vou falar desse meu lugar. Na clínica, existe uma miríade de propostas de compreensão dos sintomas, do sofrimento, do que é saúde ou doença, e da dinâmica de funcionamento de uma pessoa. Na verdade, daria pra resumir em algumas perguntas: "Por que o que está acontecendo com essa pessoa está acontecendo?" e "Como o trabalho da psicoterapia pode contribuir para alterar, incentivar, extinguir ou reduzir comportamentos, sentimentos ou pensamentos que produzam sofrimento?". Isso porque na maioria das vezes, quem nos procura é porque sofre.
Aí tem uma série de gente pensando de forma diferente na psicoterapia: tem gente que busca encontrar a relação entre ambiente e comportamento, sem pensar muito nas dinâmicas internas da pessoa, outros vão entender que o sofrimento é fruto de um conflito interior pautado numa experiência traumática da infância, outros ainda vão por caminhos que incluem política, as relações sociais, a cultura, enfim. Um monte de coisas. E a gente tinha que escolher!
Claro que isso gerava vários problemas e o maior deles é uma espécie de isolamento em sua "linha" ou "abordagem" como a gente fala e a dificuldade do diálogo. Isso por vários motivos. Um deles é que certas abordagens da psicologia são profundamente herméticas. Olha! Lembro de uma colega que era mestranda e pesquisava Lacan e precisava ler a mesma página de um daqueles Seminários umas 3, 4 vezes até entender alguma coisa daquelas palavras e fórmulas quase secretas. Outro motivo é que a gente se apaixona e escolhe uma abordagem porque ela faz sentido para a gente e como as bases epistemológicas entre abordagens são muito distintas, elas se encontram mais no conflito e na discordância.
Então, minha relação mais próxima com o fechamento ao diálogo foi com a Terapia Cognitivo-Comportamental. Na real, foi mesmo com a psicanálise lacaniana, que respeito, tenho até amigos que são (risos), mas que nunca tive paciência de ficar desvendando os enigmas em forma de teoria. Mas, para mim, a TCC esbarrava em outras questões: uma delas é que eles tinham uma abordagem bem pouco crítica para a psicoterapia e sua relação com ética, política, cultura, etc. Arrisco a dizer que a tendência de muitos TCCistas era fazer uma psicologia "psicologizante" que reduz o sofrimento subjetivo a disfunções cognitivas do indivíduo. Mas a verdade é que, depois da cerquinha chamada graduação, e a entrada nesse mundão sem porteira a gente vê que qualquer profissional da psicologia pode fazer isso, mesmo um Gestalt-terapeuta, mesmo com o background que a Gestalt-terapia tem de afirmar uma subjetividade que se faz no mundo (vejam os conceitos de campo organismo/ambiente, self, neurose, ajustamento criador, etc.) é muito fácil cair nessa armadilha dos reducionismos confortáveis.
A real é que eu nunca curti esses cercadinhos e conseguia encontrar pontes e pontos de diálogo entre as diversas teorias que eu estudava. Mas juro que, ao contrário do hermetismo quase místico do Lacan, a TCC que tive contato era muito "limpa", perfeitinha, lógica demais e deixava de fora uma dimensão muito importante que é do mistério, do afeto e disso que nos pega de surpresa na relação terapêutica. Mas quero muito mesmo ser justo: tive professores excelentes e que aprendi muito da TCC, como Bernard Rangé, Lúcia Novaes, Paula Ventura. E tenho colegas excelentes que indico pacientes para eles de olhos fechados porque sei que eles fazem um trabalho muito cuidadoso e sensível.
Como eu nunca gostei de cercadinhos, eu buscava ouvir e compreender o que meus colegas diziam e acabava percebendo encontros e afastamentos entre minha abordagem, a Gestalt-terapia, e a TCC, a Psicanálise, etc. E foi nessa onda que esse ano decidi estudar sobre Transtorno de Personalidade Borderline e me encontrei - nas páginas do livro dela, pelo menos - com Marsha Linehan, uma mulher terapeuta, tccista, com uma escrita tão séria, sensível e cuidadosa que acabou conquistando muita admiração e respeito profundos pelo trabalho dela E é dela e do trabalho dela que pretendo falar melhor na parte 2. Por enquanto é isso porque o sono tá pegando aqui. Abração!


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